O que é a Epidermólise Bolhosa (EB)?
A Epidermólise Bolhosa (EB) é um grupo de doenças genéticas raras conhecidas por causar lesões dolorosas, com o aparecimento de bolhas e feridas em epitélios, além atingir em casos sistêmicos órgãos internos, incluindo problemas no sistema gastrointestinal, respiratório, urinário e genital, e alterações no sistema muscular esquelético. A EB pode se apresentar de diversas formas no indivíduo, podendo ser mais leve ou mais grave, de acordo com o grau das lesões e com o nível de acometimento de órgãos e sistemas. (para mais informações, confira o texto “Epidermólise Bolhosa”).
Tipos de Epidermólise Bolhosa (EB)
Hoje são conhecidos cerca de 30 subtipos de EB, e, para facilitar a classificação da doença, ela é dividida em 4 grandes grupos de acordo com semelhanças de alterações genéticas e apresentações clínicas:
- Epidermólise Bolhosa Simples (EBS);
- Epidermólise Bolhosa Juncional (EBJ);
- Epidermólise Bolhosa Distrófica (EBD);
- Epidermólise Bolhosa Kindler (EBK);

Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva (EBDR)
Dentre esses 4 grandes grupos, a Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva (EBDR), acomete aproximadamente 2 indivíduos a cada um milhão de nascidos vivos.
Causa da EBDR
A EBDR é causada por uma mutação do gene COL7A1, que faz com que a pessoa apresente uma falta total ou parcial de colágeno VII, que é uma proteína importante (25-30% de todas as proteínas do corpo), a qual fornece resistência e elasticidade para uma série de tecidos do nosso corpo. Essa mutação interfere nas estruturas formadas pelo colágeno VII, chamadas de fibrilas de ancoragem, responsáveis por fixar a camada dérmica (mais profunda) da pele à camada epidérmica (mais superficial).

Manifestações clínicas e complicações da EBDR
Essas disfunções têm como consequência uma fragilidade na pele e mucosas, que pode levar ao aparecimento de bolhas e de lesões dolorosas; estritações e estenoses (estreitamentos), principalmente no esôfago; algumas deficiências nutricionais, como redução dos níveis de selênio, de vitamina D, albumina e zinco; anemia; problemas oculares e na córnea; distrofia (alterações) e perda de unhas; infecções, principalmente na pele e no sistema respiratório; e alguns problemas musculares.
Além disso, ela está relacionada com uma maior propensão ao desenvolvimento de um tipo de câncer, chamado carcinoma de células escamosas agressivo (SCC), ao longo da vida, especialmente na idade adulta. Acredita-se que isso aconteça pelas frequentes aberturas e fechamento de algumas lesões crônicas ou ainda pelo excesso de tempo que uma ferida crônica pode demorar a cicatrizar completamente.
No entanto, vale ressaltar, que, cada indivíduo com EBDR é único, ou seja, cada um pode ter ou não cada um desses sintomas, garantindo diversidade ao grupo de pessoas com EBDR.
Transmissão hereditária da EBDR
Para uma criança nascer com EBDR, é necessário que ambos os pais sejam saudáveis, mas portadores de uma cópia alterada do gene COL7A1 na forma heterozigota da doença. Sendo assim, o filho precisará herdar a variante causadora da EBDR de ambos os pais (25% de chance de isso ocorrer).
Isso é chamado de padrão de herança autossômica recessiva, como mostrado na imagem abaixo:

Diagnóstico da EBDR
Com relação ao diagnóstico, a Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva é avaliada clinicamente, sendo confirmada, muitas vezes, por meio de avaliação das lesões em biópsia de pele, ou por testes genéticos, os quais verificam a presença ou não da mutação no gene COL7A1. Sempre recomenda-se que o diagnóstico realizado seja o genético, o padrão-ouro, pois é através da identificação da variante patogênica no gene COL7A1 que é possível distinguir com absoluta certeza o tipo de EB.
A EBDR é dividida em vários subtipos, sendo eles:
-
- Grave
- Intermediária
- Inversa
- Localizada
- Pruriginosa
Tratamento da EDBR
Atualmente, não existe cura para a Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva. O tratamento é direcionado à melhora da qualidade de vida do paciente, a partir do gerenciamento de sintomas e complicações secundárias.
Estes cuidados incluem tratamento de feridas e infecções, prevenção de lesões, gerenciamento de dor e coceira e detecção e tratamento precoce de carcinoma de células escamosas agressivo (SCC). Com relação às manifestações gastrointestinais, podem ser realizados adaptação alimentar com a ingestão de alimentos mais moles ou alimentação por um tipo de sonda, chamada gastrostomia; dilatação esofágica nos casos de estenose; e tratamento da anemia.
Acompanhamentos com especialistas de todas as áreas são recomendados, como dermatologista, nutricionista, dentista, gastrologista, terapeuta ocupacional, oftalmologista, cardiologista, pneumologista e hematologista. Outras áreas de cuidado incluem fisioterapia e reabilitação nos casos de acometimento muscular, além de apoio psicossocial para os cuidadores e o paciente.
No geral, o tratamento da EB exige cuidados diários com a drenagem das bolhas e com as feridas, que devem ser cobertas com curativos não-aderentes e produtos antibacterianos e cicatrizantes. Roupas e calçados adequados ajudam a prevenir novas lesões: as roupas devem ser suaves, sem costuras ou etiquetas (ou usadas do avesso), e os sapatos devem ser leves e espaçosos para acomodar meias protetoras e curativos. Meias que reduzem a fricção e a umidade, bem como colãs de baixa compressão, também são recomendados para proteção e estabilidade.
Hoje, é possível encontrar mutações em aproximadamente 20 genes nos pacientes com Epidermólise Bolhosa. Por influenciar diretamente na apresentação clínica da doença, incluindo o tipo de proteínas ausentes ou alteradas, além do local e do padrão das bolhas, é de grande importância entender sobre a genética da EB. Isso facilita o acompanhamento do paciente, direcionando qual o melhor tipo de tratamento e manejo da doença.
Luana De Mambro é biomédica e pesquisadora, apaixonada por genética pelo mundo de terapias avançadas.
Referências:
Epidermólise bolhosa distrófica recessiva mitis: relato de caso clínico
DEBRA Brasil – O que é Epidermólise Bolhosa (EB)?
DEBRA Med Portugal – O que é a EB?
Progress in Epidermolysis Bullosa Research: Toward Treatment and Cure
Epidermolysis bullosa: Advances in research and treatment
Gene Therapy for Epidermolysis Bullosa
Colágeno: características, classificação e função – Brasil Escola

